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15/11/2016

O Nome do Vento - Patrick Rothfuss

Sinopse: Da infância como membro de uma família unida de nómadas Edema Ruh até à provação dos primeiros dias como aluno de magia numa universidade prestigiada, o humilde estalajadeiro Kvothe relata a história de como um rapaz desfavorecido pelo destino se torna um herói, um bardo, um mago e uma lenda. O primeiro romance de Rothfuss lança uma trilogia relatando não apenas a história da Humanidade, mas também a história de um mundo ameaçado por um mal cuja existência nega de forma desesperada. O autor explora o desenvolvimento de uma personalidade enquanto examina a relação entre a lenda e a sua verdade, a verdade que reside no coração das histórias. Contada de forma elegante e enriquecida com vislumbres de histórias futuras, esta "autobiografia" de um herói rica em detalhes é altamente recomendada para bibliotecas de qualquer tamanho.

Este livro foi das melhores coisas que me veio parar às mãos. Foi uma supresa fantástica e um verdadeiro deleite, que me proporcionou horas muito, mas muito bem passadas. É um livro brilhante, maravilhoso e tão cativante, que me deixou completamente rendida.
Na minha opinião, prima pela originalidade, não só pela história, mas, também, pela forma como está escrito. O livro - ou melhor, a trilogia - é a história do protagonista, Kvothe. Portanto, lemos o protagonista a contar a sua história. Kvothe conta-a a um cronista, com a condição de que precisará de três dias para tal. Este primeiro livro é o primeiro dia em que Kvothe conta a sua história. Cada livro é um dia, portanto - três dias, três livros. Um dia em que é contada uma história cheia de aventuras, de peripécias, de magia, de música, de conquistas e de perdas, de amor e de amizade, de aprendizagens e de fracassos; uma história em que nos são apresentadas variadíssimas personagens e locais; e tudo descrito de uma forma tão rica que só nos faz ansiar por mais e que nos maravilha por completo. Bem, pelo menos comigo foi assim.
Pode parecer estranho que a história de um livro inteiro se desenrole num só dia. Mas, na verdade, não é necessariamente assim.
Começámos com uma narrativa escrita na terceira pessoa, em que nos é apresentado um estalajadeiro misterioso e algo melancólico em relação à vida, que dá pelo falso nome de Kote. Experienciámos um pouco o seu quotidiano e conhecemos algumas coisas daquele mundo. Entretanto, conhecemos também o Cronista, até que, um dia, ambas as personagens se encontram. E é aí que a história do protagonista nos começa a ser contada. E, aí, a narrativa altera-se, passando para primeira pessoa. A partir daí, o livro desenrola-se tão naturalmente, que quase nos esquecemos que aquela é uma história dentro de uma história. Como que um livro dentro de outro livro. E, de vez em quando, a história que Kvothe nos conta é interrompida para regressarmos ao presente: ao mesmo dia em que esta começou a ser contada, e ao mesmo local - a estalagem -, onde Kvothe e o Cronista se encontram. Num momento podemos estar a ler a história de Kvothe, e, no outro, podemos, de repente, regressar ao momento presente. Podemos estar tão embrenhados na história, que é como se precisássemos de um momento para retomar o fôlego. Esses interlúdios funcionavam mesmo assim, como uma espécie de "abanão mental" para regressarmos à realidade - não à nossa realidade, como é óbvio, mas à "realidade" do mundo do livro - ou como uma tomada de fôlego; como se ler a história de Kvothe nos fizesse mergulhar literalmente e fossem necessários esses interlúdios para virmos à superfície e recuperarmos, pararmos um pouco. Foi esta a sensação que tive.
Depois, para além desta forma tão brutal como o livro está organizado, temos a história em si. E que história. Kvothe, para começar, é um artista. Faz parte de uma trupe que corre o mundo para entreter as povoações através do teatro e da música, e isto, no início, foi suficiente para me conquistar, porque gostei imenso da ideia. Para além disso, é uma personagem super curiosa e inteligente. E tão querida - entrou no meu top de personagens favoritas, definitavamente. Adorei mesmo este personagem. Isto porque adoro este tipo de livro em que conhecemos o protagonista desde criança e vamos seguindo a sua vida. Porque passámos a conhecê-lo tão bem, demasiado bem, que é como se, de certa forma, "crescêssemos juntos". Já me tinha acontecido isto com outra trilogia - a Trilogia do Elfo Negro -, e também o protagonista desta é uma das minhas personagens favoritas da literatura.
Mas, adiante. Não quero, de forma alguma, contar a história. Apenas dizer que começámos com uma vida de nómada e de artista numa famosa trupe e passámos para uma outra completamente diferente, de fugitivo, ladrão e sem-abrigo numa cidade que o despreza. E isto por causa da reviravolta que muda a vida do protagonista por completo, bem como a sua visão do mundo, algo que o assombrará para sempre, conduzindo-o a uma busca incessante por respostas que se mantém ao longo de todo o livro. Disto, passámos para uma outra vida, de um estudante numa universidade, e, depois, de um aventureiro que resolveu seguir uma pista sobre o acontecimento que marcou a sua infância e mudou a sua vida. Ao longo do caminho, cruzámo-nos com as mais variadas personagens, umas que podemos vir a adorar, mas outras que nem tanto, e explorámos diversos lugares. Mas, em todo o caso, há sempre dois grandes elementos em comum: magia e música. A magia pode estar presente em muitos livros do género, mas nunca da forma como nos é apresentada neste em específico. Porque a magia até tem outro nome neste mundo: simpatia. Completamente engraçado. E, quanto à música, bem, foi uma surpresa e tanto. Acho que nunca tinha lido um livro em que a música estivesse tão presente, especialmente num livro de fantasia. Podem haver livros de fantasia com canções e afins - Senhor dos Anéis, por exemplo -, mas nada quando comparado com este aqui. Até a forma como o autor fala sobre música é...diferente. Nota-se o quanto é importante para o protagonista. É-nos descrita como se fosse algo quase palpável. Algo imprescindível na sua vida. E Kvothe toca alaúde...o que poderia ser mais fofo? E um dos locais que mais adorei no livro - que foi onde se desenrolaram algumas das cenas de que mais gostei também - foi um bar, próximo da universidade, onde se juntavam artistas que partilhavam a sua música. Acho que foi uma ideia que resultou espantosamente bem. Porque este não é o típico livro de fantasia em que o protagonista parte numa demanda e percorre o mundo. Embora também percorra parte do mundo, existem estes aspectos - a universidade, as noites num bar - tão próprios da nossa realidade. E eu adorei esta espécie de junção dos dois mundos.
E, como não podia deixar de ser, há que destacar a escrita do autor, que é sublime. Para além de o livro ser super bem escrito e tão rico em detalhes, Rothfuss escreve coisas que só consigo classificar como lindas. Deixo-vos, aqui, os meus trechos favoritos:

Quando somos crianças, raramente pensamos no futuro. Esta inocência deixa-nos livres para nos divertirmos como poucos adultos conseguirão. O dia em que nos preocupamos com o futuro é também o dia em que deixamos a infância para trás.

(...) o Outono é a melhor altura para arrancar as raízes de qualquer coisa de que nos queiramos livrar de vez. (...) "Nos meses de Primavera, as coisas estão demasiado cheias de vida. No Verão, estão demasiado fortes e não se deixam ir. Já no Outono..." (...) O Outono é a altura certa. No Outono, tudo está cansado e pronto para morrer.

Saiam nos primeiros dias de Inverno, depois da primeira queda de temperatura da estação. Encontrem uma poça de água coberta por uma camada de gelo, fresco e recente, transparente como vidro. Perto do limiar da poça, o gelo conseguirá suportar o vosso peso. Deslizem para o interior. Mais ainda. Eventualmente, encontrarão um local onde a superfície não consegue suportar-vos. Aí, sentirão o que eu senti. O gelo fractura-se sob os vossos pés. Olhem para baixo e vejam as linhas brancas espalhando-se sobre o gelo como teias de aranha loucas e elaboradas. O silêncio é perfeito, mas conseguem sentir as súbitas vibrações agudas que se erguem a partir das plantas dos pés.
Foi isto que aconteceu quando Denna me sorriu. Não pretendo dizer que me senti como se o gelo estivesse prestes a ceder sob os meus pés. Não. Senti-me como o próprio gelo, fracturado, com rachas estendendo-se desde o local onde tocou o meu peito. Apenas me mantive inteiro porque os meus mil pedaços se ajustavam uns aos outros. Se me movesse, receava desfazer-me.
(Kvothe é um romântico e também o adorei por isso.)

Rendi-me completamente a esta história e fiquei mesmo apaixonada por ela. Considero este livro uma leitura obrigatória para fãs de fantasia. Foi dos melhores que já li até hoje e estou mesmo ansiosa por viver o segundo dia na estalagem, para ouvir Kvothe a contar novas histórias sobre si próprio. Um livro maravilhoso, não apenas pela história por si só, mas também pela forma como está escrito, em termos de organização e em termos da escrita em si. Recomendo vivamente.

13/10/2016

Halo, Hades e Céu - Alexandra Adornetto


Sinopse (Halo): Três anjos - Gabriel, o guerreiro; Ivy, a curandeira; e Bethany, a mais jovem e humana de todos - são enviados para levar o Bem a um mundo que sucumbe ao poder das trevas.
Esforçam-se por esconder o brilho luminoso que os envolve, os poderes sobre-humanos que detêm e, representando o maior dos perigos, as asas, ao mesmo tempo que evitam qualquer tipo de relação com os humanos. 

Mas Bethany conhece Xavier Woods e ambos se revelam incapazes de resistir à atração que sentem um pelo outro. Gabriel e Ivy tentam tudo para impedir aquela relação, mas o sentimento que une Xavier e Bethany é demasiado forte. 
A missão dos anjos é urgente e as forças das trevas são ameaçadoras. Irá o amor lançar Bethany na perdição ou salvá-la?

O que mais me levou a querer ler esta história foi o facto de se tratarem de anjos enviados à Terra. Porque achei diferente. Apesar de saber que estava perante (mais) um típico Young Adult em que o final da história parece previsível, chamou-me à atenção a questão dos anjos. Por nenhum motivo em especial; apenas por ser algo diferente do que era habitual. Para ser honesta, considero-me ateia, pelo que nem sequer pus a hipótese de a questão da religião católica estar implícita nestes livros. Bem, enganei-me.
É um romance, sim, mas é uma história que também fala do Céu e do Inferno, de Deus e de Lúcifer. E, sinceramente, isto foi algo que nem sequer me fez comichão. Pelo contrário. E não fez porque, bem, estava a ler um livro. E, num livro, pode acontecer qualquer coisa. Pode-se falar sobre tudo e mais alguma coisa, que nada me faz espécie. Para dizer a verdade, gostei bastante da forma como a autora abordou estes temas. Da sua visão do Céu, tão estranha, bizarra e "vazia", mas tão gira ao mesmo tempo, e até da forma como os três anjos que protagonizam a história falam de Deus - nota-se algo como amor genuíno, como se fosse realmente pai (de sangue) dos três. São referidas histórias e passagens da Bíblia que se enquadraram muito bem na história, e, nisto, nota-se estudo e pesquisa por parte da autora, que é algo que eu admiro quando leio um livro. Dá-nos, ainda, a conhecer a forma como o Céu está organizado; que existem vários tipos de anjos - os Arcanjos, os Serafins, os anjos "mais baixos", por assim dizer -, cada um com a sua função, e que os comuns mortais que lá vão parar não passam, bem, de almas que por lá andam.
No que toca ao lado oposto, o Inferno, lá chegarei.
O primeiro livro da trilogia, Halo, apresenta-nos, como não podia deixar de ser, as personagens e toda a hierarquia celeste. Logo nas primeiras páginas, é quase impossível não se ficar rendido à escrita da autora. Era ainda muito nova quando escreveu o livro - não sei dizer a idade ao certo, porque, ao fazer uma pesquisa, cada site indicava uma data de nascimento da autora diferente -, mas isso nem sequer se nota. Tem uma escrita muito rica, cheia de detalhes, com muitas comparações pelo meio, tal como eu gosto. É facílimo imaginarmos um espaço ou uma personagem através das suas descrições. Não são descrições exaustivas; antes, cada frase vem cheia de detalhes que nos faz logo imaginar tudo, sem sequer nos apercebermos. Apenas não gostei das constantes interrogações ao longo da escrita - Será que...? e outras coisas que tais apareciam com frequência durante a narração, e isso é algo que, pessoalmente, não aprecio. Para além disso, as personagens são muito bem caracterizadas. Têm uma personalidade bem vincada, e apercebemo-nos mais disso quanto mais lemos e quanto mais vamos avançado na história. Às tantas, já conseguimos adivinhar as reacções de determinadas personagens aos acontecimentos, tendo em conta as suas características - mas não tenho a certeza se isso é algo bom ou mau.
No primeiro livro, Beth, o anjo mais jovem, conhece Xavier e vamos acompanhando a evolução da sua relação. Que não deixa de ser um bocadinho rápida e um tanto um quanto cliché: o rapaz giro do liceu apaixona-se pela rapariga nova. Típico dos YA, mas voltarei a abordar esta questão mais abaixo. A certo ponto, a relação de ambos tornou-se demasiado melosa e pirosa para meu gosto e achei que as coisas eram um bocado exageradas. Mas é muito giro ver os anjos - principalmente a Beth - num mundo que não é o deles, a tentarem adaptar-se a coisas tão básicas e tão banais para nós como o facto de terem que comer ou dormir, a tentarem esconder a sua identidade e a não saberem o significado de determinadas coisas, como certas expressões, por exemplo.
O segundo livro começa bem, na minha opinião, e isto porque a Beth é chamada à razão pelas amigas, no que toca ao facto de a sua relação com o Xavier se ter tornado...bem, demasiado peganhenta. Falam em como é saudável não se estar sempre juntos, algo que eu concordo. E gostei que a autora falasse nisso; acho que não tinha visto esta questão a ser abordada noutros YA. Para além disso, há uma reviravolta, e é aí que passamos a conhecer o chamado Inferno. Tal como aconteceu com o Céu, a descrição da autora deste lugar surpreendeu-me. Conhecemos um mundo diferente, com lugares que nada têm a ver uns com os outros, e personagens diferentes. É um lugar bizarro, também, mas desengane-se quem pensa que não é o típico Inferno de angústia e sofrimento do qual se ouve falar. E é quase impossível não nutrir uma certa "simpatia", digamos assim, pelo vilão da história, que já surgira no volume anterior. Pelo menos eu falo por mim; parece que tenho sempre uma queda pelos bad boys das histórias, e este não foi excepção.
No terceiro livro, há novas reviravoltas e novas peripécias, e está sempre no ar e a cada virar de página a dúvida se Beth e Xavier conseguirão, realmente, ficar juntos. Não apenas por ela ser um anjo e ele um humano, mas também porque a sua estadia na Terra é temporária, tendo ela e os outros dois, Gabriel e Ivy, sido enviados apenas com uma missão - em que, no entanto, têm que se misturar e viver como humanos para não darem nas vistas. Mas, para além disso, travarem qualquer tipo de relação com humanos não fazia parte dos planos, pelo que as autoridades celestes vêem-se obrigadas a intervir quando se apercebem que as coisas foram demasiado longe. E é por isso que há sempre aquela dúvida se vão ficar juntos ou não.
Este último volume surpreendeu-me. E isto porque, afinal, o famoso cliché dos YA tem uma razão de ser. Ou seja, há uma explicação para Xavier se ter apaixonado por Beth - uma explicação para ter sido ele, e não outra pessoa qualquer -; não foi uma simples obra do acaso. Foi algo que me surpreendeu e algo que gostei de ver num livro deste género. E a dita explicação seria perfeita e tinha tudo para dar certo...se não fosse um pormenor, referido no primeiro volume, que fez com que as coisas não fizessem sentido. Ou seja; gostei que houvesse uma explicação, estava mesmo surpreendida e entusiasmada com isso, mas, depois, fiquei frustrada. Porque a explicação não fazia sentido, e não fazia por causa de algo referido no primeiro livro! Em suma, passei o que restava deste terceiro livro à espera que me explicassem isso melhor e que houvesse uma resposta ou uma explicação para isso...e nada! Francamente, isso irritou-me. Como é que nem a autora, nem os revisores, nem ninguém reparou nesse deslize? Não percebo. Desde aí, ando a pensar seriamente em mandar um e-mail à autora a pedir-me que me explique tudo isso. É que não faz sentido!
Mas enfim. Não deixa de ser uma boa história. Bonita, diferente, engraçada, muito cativante, não só em termos de enredo, mas também no que toca à escrita em si, que é igualmente bonita e torna os livros em algo leve e fácil de ler. Devorei estes três livros e gostei mesmo muito deles. Tive imensa pena que a suposta explicação não fizesse sentido por me lembrar do raio de um pormenor - que muda tudo, se virmos bem - e gostava que o final tivesse sido mais desenvolvido. Mas, tirando isso, gostei bastante.

19/12/2015

Série Shadowfell - Juliet Marillier

Sinopse (Shadowfell): Na terra de Alban, onde o jugo tirânico de Keldec reduziu o mundo a cinzas e terror, a esperança tem um nome que só os mais corajosos se atrevem a murmurar: Shadowfell. Diz a lenda que aí se refugia uma força rebelde que lutará para libertar o povo das trevas e da opressão. E é para lá que se dirige Neryn, uma jovem de dezasseis anos que detém um perigoso Dom Iluminado: o poder de comunicar com os Boa Gente e com as criaturas que vivem nas profundezas do Outro Mundo. Será Neryn forçada a fazer esta perigosa viagem sozinha? Ou deverá antes confiar na ajuda de um misterioso desconhecido cujos verdadeiros desígnios permanecem por esclarecer? Perseguida por um império decidido a esmagá-la e sem saber em quem pode confiar, Neryn acabará por descobrir que a sua viagem é um teste e que a chave para a salvação do reino de Alban pode estar nas suas próprias mãos.

Foi a primeira vez que li algo desta autora, e tornei-me sua fã logo após o primeiro volume da trilogia. Quem já leu outros livros dela costuma dizer que esta série não é grande coisa. Mas eu, que nunca tinha lido nada dela antes, fiquei completamente encantada, tanto com a história, como com a forma como está escrita.
Quando se abrem os livros, deparamo-nos com um mapa. Regra geral, fico sempre ansiosa por ler um livro que tenha um mapa, pois significa que a história tratar-se-á de uma viagem ao longo de um mundo novo, que com certeza nos dará a conhecer lugares tão diferentes e durante a qual surgirão diversos obstáculos a superar. E costumam ser histórias com magia. Este é um dos meus tipos favoritos de livros. Neste caso, há uma viagem num mundo perigoso. Alban é um reino onde cada palavra tem que ser cuidadosamente pensada antes de ser proferida, onde muito dificilmente se pode confiar em alguém, onde os inimigos são muitos e os amigos são escassos, onde as pessoas com dons são forçadas a escondê-los. À primeira vista, a viagem da protagonista em busca de Shadowfell pode parecer monótona e solitária, mas revela-se o contrário, graças às diversas personagens - humanas e não só - que cruzam o seu caminho e que a obrigam a dar o melhor de si para superar os variados obstáculos e desafios.
A escrita de Juliet Marillier é rica, mágica e encantadora. Tem muitos aspectos positivos a salientar. Em primeiro lugar, apesar de os livros estarem escritos na primeira pessoa e de a protagonista ser uma adolescente, a linguagem não é nada acriançada, como tantas vezes acontece. Todos os diálogos, aliás, são bastante maduros e bem construídos, remetendo-nos para épocas mais antigas em que se utilizava um outro tipo de discurso. A forma como tudo estava escrito fez com que me transportasse directamente para o mundo da história, como se eu fosse uma espécie de fantasma a perseguir a protagonista para todo o lado. É tão fácil imaginar, na nossa cabeça, tudo quanto lemos, como se de um filme se tratasse, com esta autora. É como se, até, conseguíssemos "sentir" os próprios ambientes - a chuva, o cheiro a papas de aveia, o calor de uma fogueira -, de tão bem que tudo estava descrito. E, para além de tudo isto, os nomes de alguns dos personagens são bastante característicos e cheios de personalidade. Tanto de personagens humanas - gostei, especialmente, dos nomes Rohan Death-Blade e Tallis Pathfinder -, como de, e principalmente, Boa Gente, seres mágicos, dignos de contos de fadas, que adquirem as mais variadas formas, com os quais quem tem um dom especial pode comunicar e fazer proezas ainda mais espantosas. Os nomes destes últimos foram traduzidos para português, e achei que foi uma decisão que fez todo o sentido, pois assim o leitor apercebe-se melhor do facto de os seus nomes serem tão característicos - felizmente, não traduziram os nomes dos lugares, bem como Death-Blade e Pathfinder, pois isso seria realmente estúpido e ficaria muito mal.
Outros aspectos que também adorei, e que têm agora a ver com o enredo em si, foram as diversas situações que me fizeram pensar em coisas do tipo Oh não, e agora?, que me aguçavam sempre mais o apetite para a leitura; o facto de os romances se desenvolverem de forma tímida, cautelosa e um tanto ou quanto secreta, o que tornava tudo muito mais fofinho, na minha opinião; e, ainda, o modo como Neryn, a protagonista, usava o seu dom. Uma das suas demandas tem a ver com a procura dos chamados Guardiães de Alban, com o objectivo de lhe ensinarem mais sobre o seu dom. São seres representativos dos quatro elementos: água, terra, ar e fogo. Neryn não possui magia própria, mas os ensinamentos dos Guardiães ajudam-na a usar o seu dom através da magia dos elementos. E a autora descreveu esta questão de uma forma verdadeiramente fantástica. 
Adorei, ainda, aquele que se tornou no meu personagem favorito, Flint. É difícil gostar, ou, pelo menos, sentir empatia por um personagem logo no momento em que aparece, mas foi o que aconteceu com Flint. Muito misterioso e de poucas palavras no início; quis tanto saber mais sobre ele e fiquei logo triste por ter desaparecido tão depressa quanto apareceu, o que me fez desejar que voltasse a surgir mais à frente ou que tivesse ficado por mais algum tempo. Ao longo dos livros, surgem passagens que são narradas do seu ponto de vista, em vez do de Neryn, e em terceira pessoa, tal qual como eu tanto gosto. E estas passagens fizeram-me gostar ainda mais desta personagem, pois finalmente entramos na sua cabeça, percebemos o que está a pensar e conhecemo-lo melhor. Até agora, foi uma das minhas personagens favoritas de todos os livros que já li.
Os únicos pontos negativos que tenho a apontar são: o facto de os capítulos serem grandes demais - alguns deles com mais de trinta páginas, que podiam perfeitamente ter sido divididos - e o facto de me sentir algo desiludida com o final. Não, não foi só porque a série acabou - ainda sinto esse "vazio" e mal me sinto "preparada" para iniciar uma nova leitura. Foi o facto de não se ter sabido o que aconteceu a determinadas personagens. Cheguei a pensar que faltavam páginas ao meu exemplar. Gostava mesmo de saber o que teria acontecido, mas pronto.
Recordarei esta série com imenso carinho, uma vez que foi uma das melhores que já li até hoje. Adorei o enredo, a história está escrita de uma forma, a meu ver, espectacular e a autora é uma enorme inspiração. Para mim, uma leitura obrigatória para amantes do romance fantástico.

16/11/2015

Série Divergente - Veronica Roth

Sinopse (Divergente): Na Chicago distópica de Beatrice Prior, a sociedade está dividida em cinco fações, cada uma delas destinada a cultivar uma virtude específica: Cândidos (a sinceridade), Abnegados (o altruísmo), Intrépidos (a coragem), Cordiais (a amizade) e Eruditos (a inteligência). Numa cerimónia anual, todos os jovens de 16 anos devem decidir a fação a que irão pertencer para o resto das suas vidas. Para Beatrice, a escolha é entre ficar com a sua família... e ser quem realmente é. A sua decisão irá surpreender todos, inclusive a própria jovem.
Durante o competitivo processo de iniciação que se segue, Beatrice decide mudar o nome para Tris e procura descobrir quem são os seus verdadeiros amigos, ao mesmo tempo que se enamora por um rapaz misterioso, que umas vezes a fascina e outras a enfurece. No entanto, Tris também tem um segredo, que nunca contou a ninguém porque poderia colocar a sua vida em perigo. Quando descobre um conflito que ameaça devastar a aparentemente perfeita sociedade em que vive, percebe que o seu segredo pode ser a chave para salvar aqueles que ama... ou acabar por destruí-la.

Estava ansiosa por ler esta trilogia, em especial devido à história das fações em que a sociedade está dividida. Pareceu-me algo diferente, e, de facto, gostei bastante da ideia. Achei muito interessante a ideia, ou melhor, o facto de se cultivar uma virtude específica, cada uma delas oposta aos "defeitos" da humanidade. Foi igualmente interessante ver que as pessoas de cada fação são treinadas a cultivar a sua virtude, e que esses treinos são específicos e diferentes consoante as fações. No entanto, as pessoas pertencentes a cada uma eram demasiado estereotipadas, não sei se por vontade da autora ou não. De qualquer forma, a verdade é que, na realidade, as pessoas têm, de facto, a tendência de rotular e de estereotipar toda a gente que pensa ou que age de determinada maneira. Talvez a autora tenha querido criticar a sociedade actual, não só neste sentido, mas também no que diz respeito a determinadas atitudes e práticas, que são feitas ou para alcançar um objectivo maior, ou apenas porque assim é exigido, porque é o que é certo e o que tem que ser feito.
Houve várias coisas que gostei nestes livros. Gostei do facto de acontecerem muitas coisas num só, em vez de todo o livro se focar apenas num único acontecimento. Tornou tudo muito mais empolgante e entusiasmante. Gostei dos finais em aberto, que pediam logo a leitura do próximo livro, como se fossem os finais de temporada das séries. Gostei que, a cada livro e quanto mais se avançava na história, se descobria mais acerca do que significava ser-se Divergente. Foi muito interessante verificar que tal era muito mais do que a breve definição que surgia no primeiro livro, e o facto de a autora meter a genética ao barulho tornou tudo mais delicioso. Gostei que a história não se focasse assim tanto no romance entre os protagonistas, como acontece em vários livros do género, e que tivesse mais cenas de acção e mais mistérios do que partes melosas e lamechas - embora existam, mas em quantidade q.b.. Houve cenas muito giras, como as paisagens dos medos e as brincadeiras dos membros da fação que Tris escolhe, com especial destaque para a descida, através de um cabo, do alto de um edifício. Algumas destas "cenas giras" parecem não ter o seu propósito ou servir apenas "para encher", mas, depois, à medida que se avança na história, acabámos por perceber que incluí-las fez todo o sentido. E gostei da Tris logo no início, por não ser a típica protagonista desajeitada e com medo de tudo, que, só mais tarde, se torna forte e corajosa. Ela é corajosa desde o princípio, e isso agradou-me.
Em relação à escrita, não a achei nada de extraordinário, sem nada que diferenciasse a autora de outros nomes do género. Aliás, no que diz respeito a isto, estes livros têm uma coisa muito má: estão escritos no presente. É certo que uma pessoa acaba por se habituar, mas eu detesto livros escritos no presente; mesmo passado algum tempo, volta a fazer um bocadinho de confusão.
Gostei que, no terceiro livro, a autora alternasse o narrador. A história é contada ora do ponto de vista de Tris, ora no de Quatro, o protagonista masculino (não vou dizer o seu nome verdadeiro, porque isto tira a piada toda a quem não leu os livros). Já estou habituada a ler livros em que as perspectivas são alternadas, de tal maneira que, agora, prefiro ler livros assim, que me ofereçam diferentes pontos de vista, de forma a conhecer melhor as personagens e para que a própria leitura não se torne aborrecida por estarmos a seguir sempre a mesma personagem. No entanto, desagradou-me que as partes narradas por Quatro fossem escritas igualmente na primeira pessoa. Na minha opinião, teria tido mais lógica se tivessem sido escritas na terceira. A certas alturas, eu já não sabia se estava a ler algo visto da perspectiva de Tris ou de Quatro. Se um estivesse escrito na primeira pessoa e o outro na terceira, aí já não teria tido dúvidas. Pareceu-me, até, que os próprios tradutores se confundiram de vez em quando, pois surgiram alguns erros de tradução no que diz respeito a adjectivos, que deviam estar no masculino, em vez de no feminino.
Outra coisa que me desiludiu foi a previsibilidade. Há cenas muito, muito previsíveis. Especialmente porque a autora acaba por nos habituar a tal, dada a quantidade de acontecimentos tristes com as mais diversas personagens, que nos levam, automaticamente, a adivinhar o seu desfecho. Em contrapartida, surgiram cenas das quais não estava nada à espera. E tem graça constatar que estas cenas acontecem em momentos opostos da história: logo no princípio, quando Caleb, o irmão de Tris, escolhe a sua fação - nunca desconfiei - e no final. O final surpreendeu-me.
Na minha opinião, algumas cenas necessitavam de mais alguns detalhes, para que o leitor percebesse melhor o que se estava a passar. Para a autora, faziam sentido, pois ela é que sabe o que se passa e o que quer que se passe. Mas os leitores não estão dentro da sua cabeça. Enfim, é só um pormenor, e, obviamente, não se aplica à história toda.
Em suma, estava ansiosa por ler e não fiquei desiludida. Gostei muito, e, agora, resta-me ver os filmes.

21/07/2015

Trilogia do Senhor dos Anéis - J. R. R. Tolkien

Esta é uma história que dispensa apresentações, embora, no meu caso, que nunca tinha visto sequer os filmes antes de resolver pegar nos livros, tivesse necessitado delas. Juro que não sabia do que a história tratava, tirando a parte de envolver uns anéis quaisquer, e que era uma perfeita naba no que dizia respeito ao universo onde se desenrolava. E foi precisamente o facto de ouvir falar tanto nela e de me sentir uma completa ignorante sempre que ouvia falar sobre ela - nem que fosse só uma pequena referência - que me fez ter uma enorme vontade de ler estes livros.
Antes de ler esta trilogia, contudo, li O Hobbit, e acho que fiz bem. Fez todo o sentido lê-lo em primeiro lugar, uma vez que se trata da história que antecede O Senhor dos Anéis. Para além de ter ficado familiarizada com as personagens que surgem na trilogia, de ter percebido como o anel foi parar às mãos de Bilbo e de ter tido um pequeno vislumbre da Terra Média, ter lido O Hobbit fez com que entendesse as diversas referências que a esta história são feitas na trilogia. De outro modo, ter-me-iam passado ao lado, e até se tornou engraçado notá-las. No entanto, notei, n'O Hobbit, uma escrita um bocado estranha e à qual não estava habituada, e isto deixou-me um pouco de pé atrás quanto ao facto de me querer embrenhar n'O Senhor dos Anéis. Mas, assim que comecei a ler as primeiras páginas do primeiro volume da trilogia, fui agradavelmente surpreendida pelo modo como estavam escritas. Foi como se Tolkien tivesse crescido em termos de escrita, mas quem sou eu para o afirmar. Na verdade, acabei por saber que O Hobbit tinha sido escrito especialmente para crianças, e esta deve ser a razão pela qual o modo como está escrito ser diferente do d'O Senhor dos Anéis, que já não era dirigido a um público tão jovem. Também por esta razão, foi bom ter começado a ler os livros por esta ordem, porque, se fosse ao contrário, estaria, agora, chocada.
Se havia outra coisa que me deixava de pé atrás, essa "outra coisa" prende-se com o facto de se tratarem de livros que já contam com umas boas décadas, e, portanto, estava com algum receio do tipo de linguagem que neles estaria empregue. No entanto, fui, mais uma vez, surpreendida pela positiva. A linguagem é completamente acessível, e o modo como está escrito não é nada de outro mundo; aliás, à medida que me embrenhava na história, esquecia por completo a idade dos livros e sentia-me como se estivesse a ler um livro que tinha sido escrito há pouco tempo. Por vezes, os poemas e as canções, que surgiam aqui e ali, eram capazes de me irritar um bocadinho, não só por não gostar de poesia, mas por se ter perdido muito com a tradução (as rimas, por exemplo, deixaram de existir devido à tradução), o que tornava a leitura mais aborrecida, pelo menos para mim. Optava por ler aquilo mais ou menos na diagonal, para não "sofrer" tanto e uma vez que não se perdia grande coisa se não entendesse os poemas - e eu sou péssima a entender e a interpretar poemas. Mas, de um modo geral, estava tudo muito bem escrito e fácil de entender. Alguns diálogos remetiam mais para épocas passadas, mas não tropecei em palavras complicadas, e, tirando isso, foi como se, tal como já disse, estivesse a ler um livro actual.
E uma das coisas que mais gostava de ler eram as descrições dos lugares. As descrições são maravilhosas; fizeram-me imaginar lugares mesmo bonitos. Mesmo que não fossem bonitos, o modo como eram descritos era, por si só, bonito, e isto porque eram, frequentemente, usadas comparações e metáforas nas descrições, que são o suficiente para embelezar um texto.
No que diz respeito à história em si, adorei o primeiro livro. Acho que já disse por aqui no blog que o meu género de livros favorito é precisamente este, em que as personagens têm como missão chegar a determinado lugar mas que, para isso, têm que fazer uma longa viagem, previamente planeada, durante a qual passam por imensos lugares, tão diferentes entre si, conhecem outras personagens e são forçados a superar obstáculos que surgem no caminho. O primeiro volume é aquele que mais aventura traz, e mais aventura significa mais lugares fantásticos e mais peripécias, daí que o tenha adorado completamente. Fiquei fascinada pela história, pelas personagens e pela própria Terra Média, e acho que a coisa terminou mesmo bem, porque o facto de as personagens se terem separado aguçou-me a curiosidade para o que se iria passar com cada uma. 
O segundo volume começou bem por causa disso, pois seguiam-se umas e outras e via-se os seus caminhos a cruzarem-se e descruzarem-se, e dei por mim ansiosa pelo momento em que se reencontrariam. No entanto, a segunda parte deste livro tornou-se aborrecida, uma vez que se concentrava apenas na viagem de Frodo e Sam, não havendo, por isso, mudanças em termos de personagens, de rumos e de objectivos. Esta segunda parte arrastou-se durante algum tempo, e mais aborrecida teria sido se não fosse Gollum, com o qual ainda dava para rir um bocadinho. Contudo, perto do final, a coisa volta a tornar-se interessante. Apesar de tudo, o segundo volume foi o de que menos gostei.
Já o terceiro voltou a ser fantástico. A história desenrolou-se a um ritmo semelhante ao do volume anterior, em que cada capítulo seguia personagens diferentes, uma vez que se haviam separado novamente. Mas foi muito mais entusiasmante do que dantes - ou então era eu que estava mais entusiasmada -, talvez devido à guerra iminente e àquela coisa do E agora? Será que vão mesmo chegar a tempo?. E ler sobre a guerra em si não foi tão monótono e confuso como estava à espera, muito pelo contrário: foi algo dinâmico, uma vez que os pontos de vista mudavam constantemente, e deu para perceber tudo na perfeição. Gostei especialmente dos saltos no tempo, do facto de se voltar ao passado para se perceber como uma outra personagem viveu um mesmo acontecimento já descrito. Até o final foi interessante, porque eu pensava que, depois de cumprida a missão, não aconteceria mais nada, mas eis que fui surpreendida. Fui capaz de prever o derradeiro final através do título do último capítulo; no entanto, gostava de ter sabido mais a respeito do destino de cada personagem. A história mostrou como uma viagem e o acto de se sair da nossa zona de conforto podem mudar uma pessoa para melhor, coisa que já não é novidade nenhuma, por, hoje em dia, se ouvir falar tanto acerca disto, de que a magia acontece fora da nossa zona de conforto. Também este pensamento tão actual fez com que sentisse que estava a ler um livro relativamente recente.
De um modo geral, fiquei encantada. Já há muito que queria ler esta trilogia, e todas as minhas expectativas foram superadas. Adorei, e mal posso esperar por ver, finalmente, os filmes - se bem que já sei que vou chorar por dentro quando acabar o último, por já não ter mais para ver, tal como aconteceu com O Hobbit e com o Harry Potter.
E não posso deixar de terminar este post sem mencionar algo engraçado com o qual me deparei ao longo dos livros. Há uma banda chamada Battlelore - que eu costumava ouvir, mas que, agora, só ouço uma música ou outra -, cujas letras são inspiradas nos livros de Tolkien e fazem, portanto, referências à Terra Média. E foi super engraçado ler determinadas coisas e lembrar-me das músicas deles. Do género: ler Torre da Lua e lembrar-me da música Moontower ou ler Última Aliança e lembrar-me de que têm um álbum chamado The Last Alliance. Mas a melhor teve a ver com: Na Terra de Mordor onde moram as Sombras. Em que a minha reacção foi mesmo esta: Isto em inglês fica "In the land of Mordor where the Shadows lie"... Where the Shadows lie! É o nome de um álbum de Battlelore!. Enfim, só mesmo comigo.

03/11/2014

Das asneiras sobre alimentação que vejo por aí

Como disse há uns posts atrás, se há algo que o meu curso me tem ensinado e que me sabe bem, este algo é o ser capaz de corrigir aqueles que acham que sabem tudo, os que fazem más escolhas, os que dizem coisas que vão contra aquilo que aprendi, entre outros que tais. A pedido de algumas famílias, serve este post para dar a minha opinião acerca de algumas das asneiras que vejo, ouço ou leio pela internet - blogosfera incluída - e nas revistas. Apenas peço que não me ataquem com conversas do género Mas o meu nutricionista disse-me que devia fazer isto e aquilo! - porque é claro que toda a gente acredita mais no nutricionista, e não na simples estudante que para lá caminha, coisa que me deixou de pé atrás em relação à escrita deste post; mas, ao mesmo tempo, vi-me cada vez mais na necessidade de o escrever. Há quem tenha uma opinião diferente e, portanto, métodos diferentes, os quais ainda não consegui entender, uma vez que vão contra tudo aquilo que tenho aprendido. Isto, reforço, é a minha opinião pessoal, tendo em conta aquilo que tenho aprendido ao longo do curso. 

19/09/2014

A Passagem - Justin Cronin

Sinopse: A Passagem é o primeiro livro de uma grandiosa epopeia pós-apocalíptica. Uma experiência científica a que o exército dos Estados Unidos submete vários homens e uma menina, para os tornar invencíveis, resulta numa catástrofe cujos efeitos têm consequências inimagináveis. Os homens submetidos àquela experiência tornam-se detentores de extraordinários poderes, mas são monstros assassinos sedentos de sangue. No primeiro volume do livro acompanhamos a sangrenta destruição que se segue à invasão dos mutantes, bem como a penosa reorganização dos sobreviventes em pequenas comunidades precárias, onde a gestão dos escassos recursos é uma prioridade. Neste cenário de devastação instala-se uma dinâmica que vai modificando as personagens e as relações que se estabelecem entre elas.

Não tenho palavras para dizer o quanto adorei estes livros. E, como gosto sempre de falar muito, mas muito sobre aquilo de que mais gosto, aviso, desde já, que este é um post longo.

A Passagem é um livro complexo, e é mesmo assim que gosto deles. Quando se lê este livro, parece que se está a ver uma série, tal é a quantidade de personagens, de enredos, de ambientes e de saltos temporais. Tal como uma série que nos é querida, quando começamos a ler o livro e a embrenharmo-nos na história, não queremos que ele acabe. E, tal como acontece com uma série, é como se estabelecêssemos uma ligação especial com as personagens, por passarmos a conhecê-las tão bem; é como se elas já fizessem parte do nosso dia-a-dia, tornando-se difícil abandoná-las quando fechamos o livro pela última vez.

Para ser sincera, só comecei a ficar completamente viciada a partir da terceira parte, quando, como se lê na sinopse, os sobreviventes à invasão dos mutantes se organizam em comunidades. Foi muito interessante ver a forma como a dita comunidade estava organizada, toda ela pensada ao mais pequeno pormenor, e foi aí que conheci personagens que me cativaram e me marcaram, para além de ter vindo a descobrir diversos enredos entre elas. Mas isto não quer dizer que as partes um e dois não tivessem sido igualmente interessantes. Muito pelo contrário.

Tudo começa com a descoberta de um vírus capaz de curar o cancro. Mas parece fazer mais do que isso: consegue proporcionar um envelhecimento extremamente lento, levando os infectados a viver durante anos e anos num corpo jovem, quase como se fossem imortais. É então que decidem testá-lo, e fazem-no em condenados à morte, uma vez que, se a coisa correr mal e os cobaias acabarem por morrer, lá está, não se perde nada. Até ao dia em que decidem testá-lo numa menina de seis anos chamada Amy - que é um mistério desde que a conhecemos. E fazem isto porquê: porque o vírus actua no timo, uma glândula situada no nosso tórax que diminui de tamanho ao longo da vida. Como Amy tem apenas seis anos, o seu timo terá um tamanho superior, pelo que o exército quer ver que efeito terá o vírus sobre ela - já que, nos condenados, não houve o efeito que se esperava, como se lê na sinopse: tornam-se numa espécie de vampiros fabricados pela ciência. Toda esta exaustiva primeira parte pode ser, assim, considerada um prólogo do livro. Digo exaustiva porque é gigantesca, mas achei-a bastante interessante. Porque gostei da ideia e porque envolve ciência. E eu gosto de ler coisas sobre ciência que não estejam em notícias, em livros de estudo ou em artigos científicos. Não sei porquê. Talvez por perceber que houve algum trabalho, em termos de pesquisa e afins, por parte de um autor. Ou talvez por eu ser da área das ciências. Enfim.

Cronin escreve muito bem, e as suas personagens estão muitíssimo bem feitas e caracterizadas. O modo como o livro está escrito faz com que a leitura seja bastante viciante, interessante e nada monótona: a narrativa não é sempre vista do ângulo do mesmo personagem e, por vezes, a história é-nos contada através de e-mails ou de excertos de livros, o que permite desanuviar um pouco da narrativa "normal". Usa, ainda, muitas analepses. Muitas, mesmo: de repente, damos por nós a visitar o passado de uma personagem, a conhecer a sua história de vida. Coisa que pode parecer palha, mas que não o é, de todo. Porque, ao conhecermos o passado de uma personagem, é como se nos tornássemos mais próximos dela, como se conseguíssemos, por fim, compreender porque age ou porque pensa da forma como faz no presente. Fez-me lembrar o Once Upon a Time, com todas estas viagens no tempo. Como se tudo isto não bastasse, Cronin sabe mexer com a nossa cabeça: faz-nos pensar que aconteceu ou vai acontecer determinada coisa - os capítulos são sempre muito bem terminados, dando-nos logo vontade de ler mais -, mas, mais tarde, revela-nos que aquilo que pensámos - ou que, em alguns casos, chegámos mesmo a acreditar - que tinha acontecido, afinal, não ocorreu de todo. E, aí, lá aparece mais um flashback para nos explicar como é que se passaram as coisas.

Achei engraçado ter descoberto, quase no fim do livro e quando não parava de me perguntar por que se chamava A Passagem, o porquê do título. Mais engraçado ainda foi ter descoberto que este significado estava próximo daquilo que eu suspeitara. Outras situações engraçadas incluem o facto de os sobreviventes à invasão não perceberem, por exemplo, o que faz uma Torre Eiffel em Las Vegas, não saberem o que é uma Coca-Cola e ficarem totalmente espantados quando assistem a um filme. E isto para não falar das analogias que o autor usou para descrever a situação daquele mundo - as histórias de Drácula e da arca de Noé, que se encaixavam perfeitamente no contexto.

O facto de existirem muitas personagens, especialmente a partir da terceira parte, pode confundir um bocado o leitor, é certo. No início, torna-se difícil lembrarmo-nos de quem é quem, mas o autor faz questão de nos relembrar isso mesmo, dizendo, por exemplo, o sobrenome do personagem sobre o qual se está a focar no momento, a sua ocupação ou um detalhe seu ou do seu passado. Podem ser igualmente confusos os precursos que os personagens fazem entre diversas cidades e estados dos Estados Unidos, uma vez que não nos sabemos situar e não sabemos - eu, pelo menos, não sei - o que é que faz fronteira com o quê.

Aquilo de que menos gostei tem somente a ver com a tradução. Por exemplo, o facto de terem usado a expressão, um tanto ou quanto ridícula, fisga-se - para traduzir os damn's do original, talvez -, e de terem usado o verbo "jogar" em diversas situações que não o pediam - como, por exemplo, jogou a mão ao colete ou devíamos jogar as coisas ao fogo. É muito "abrasileirado", e acho que não caíu bem. E isto para não falar de outros erros de tradução que encontrei ao longo do livro - foram pouquinhos, pelo menos, mas, mesmo assim, eram escusados.

A Passagem é...um misto. É acção, aventura e sobrevivência; é épico, fantástico e viciante; é humanos, mutantes que parecem vampiros e algo entre os dois; é destruição, sangue, tiros e morte; é amor, amizade e companheirismo; é ficção científica, mistério e suspense. É algo como o qual nunca tinha lido antes e que me deixou completamente rendida e sem vontade de me despedir do seu mundo catastrófico e das incríveis personagens que conheci. Aguardo o próximo volume com enorme ansiedade e grandes expectativas. Façam um favor a vocês próprios e...leiam isto.

29/06/2014

Hex Hall - Rachel Hawkins

Sinopse: Um bilhete só de ida para um colégio interno perdido nos pântanos do Louisiana era talvez a última coisa que Sophie Mercer esperava receber pelos seus dezasseis anos. Mas Sophie não é uma adolescente igual às outras. Sophie é uma feiticeira e, tal como os outros prodigium, feiticeiros, fadas, lobisomens e vampiros, Sophie não pode frequentar uma escola normal. O que Sophie esperava ainda menos era ser companheira de quarto de Jenna, a única vampira da escola, e ver-se enredada numa trama para descobrir quem anda a assassinar os alunos da escola ao mesmo tempo que tem que lidar com os seus novos poderes, a descoberta da importância do seu Pai na hierarquia dos feiticeiros e a sua paixão pelo namorado da sua mais recente inimiga.

Livros acerca de escolas de magia já foram mais "a minha onda". Foi o que me fascinou no mundo de Harry Potter e foi o que me levou a ler a saga Casa da Noite. Depois destas duas, deixei de ligar a livros sobre escolas estranhas para seres sobrenaturais, uma vez que tudo o que é demais, enjoa, e há livros sobre muitos outros assuntos para descobrir. Mas este, em especial, não me conseguiu deixar completamente indiferente. Principalmente devido ao factor preço, que foi o que me fez decidir a trazê-lo para casa - não é todos os dias que encontramos um livro por uns míseros três euros e meio.
De facto, existem semelhanças com os mundos de Harry Potter e da Casa da Noite. Em termos do primeiro, temos os fantasmas que vagueiam pela escola, assim como um personagem que me fez lembrar o Hagrid, por viver sozinho numa cabana no meio dos campos que rodeiam o edifício - e foi bastante engraçado o facto de a própria autora fazer referência ao Hagrid assim que eu pensei nisto. Quanto à saga Casa da Noite, as semelhanças foram, para mim, muito mais evidentes. Em Hex Hall, temos a típica companheira de quarto da personagem principal que se transforma na sua melhor amiga (como a Stevie Rae da Casa da Noite), temos as típicas raparigas populares (do género da Afrodite e das outras duas, cujos nomes não me recordo de todo) e temos o típico bonzão da escola que anda com a rapariga popular (o Erik da Casa da Noite). O que poderia fazer com que Sophie, protagonista da história, fosse a Zoey da referida saga, se não fossem tão diferentes uma da outra. Enquanto Zoey acabou por revelar uma personalidade bastante irritante com o passar dos livros, Sophie é super divertida e é praticamente impossível não gostar dela. Apesar disso, não deixa de ter algo, também, de típico: a típica miúda desastrada e auto-depreciativa que tem um grande poder e grandes capacidades, mas que não acredita suficientemente em si própria.
Apesar de tudo, Hex Hall não é uma escola normal. É como se fosse uma casa de correcção para miúdos que expuseram os seus poderes ao mundo humano, não apenas para feiticeiros e bruxas, mas também para fadas, lobisomens e mutáveis. Para além de que é a escola mais feia que se pode imaginar. Só nisto, o livro ganha uns pontos a seu favor.
Para além disto, embora todos os típicos que enumerei, a história em si não tem nada de típico. É evidente que o facto de existirem aquelas personagens tão típicas e tão presentes em livros e em filmes protagonizados por adolescentes faz com que surjam os característicos dramas e intrigas entre grupos. Mas eu estava longe de imaginar o desfecho das coisas. Provavelmente sou eu que tenho um raciocínio lento e que não li nas entrelinhas, mas não estava mesmo à espera de saber que determinada personagem era o misterioso assassino, nem tão-pouco o que sucederia entre Sophie e o "bonzão da escola" - o quê, acham que há final feliz aqui? -, pelo que fui bastante surpreendida pela positiva.
Aliás, todo o livro surpreendeu-me pela positiva. Foi uma leitura bastante divertida, leve, facílima de compreender e de deixar o leitor levar-se e perder-se pelas páginas, a tal ponto que começou a tornar-se viciante. Os capítulos terminavam sempre de forma a tentarem-nos a ler mais, e o final em aberto, com uma inesperada revelação na última frase, abre completamente o apetite para o próximo livro da saga.
Houve apenas um pequeno pormenor que conseguiu irritar-me. A linguagem. Eu devia parar de ler livros cuja protagonista é uma adolescente de dezasseis anos, uma vez que estou sempre a refilar acerca da linguagem utilizada. É simples, claríssima e directa, sim, mas talvez o problema seja precisamente o facto de ser demasiado simples. A narrativa desenrola-se a bom ritmo, mas o livro não perderia nada em ser um bocadinho mais pausado e pormenorizado - sim, eu adoro descrições longas e detalhadas, coisa que muita gente detesta profundamente, mas que eu considero que torna tudo muito mais rico. Talvez diga isto devido ao facto de alguns autores - Tolkien, Salvatore - terem-me habituado a este tipo de coisa, pelo que, agora, começo a estranhar ler narrativas que se desenrolem mais rapidamente e que não perdem grande tempo em descrições. Mas, muito provavelmente, este - o de Hex Hall - é o tipo de escrita que agrada a muita gente.
Mas sem dúvida que o que mais me irritou em termos de linguagem foi o iá. Em quase todos os diálogos e em quase todas as páginas, havia um iá, que me tirava um bocado do sério. Ficava horrível em qualquer frase que fosse, embora consiga, de certo modo, compreender que quem fez a tradução não tenha tido grandes hipóteses em termos de passar um yeah para português. E, tendo em conta que o iá é coisa que ainda muita gente diz - e que, lá por ser dito em vez de escrito, não deixa de ser igualmente foleiro -, pronto, dá-se um desconto.
Porém, reforço: não deixa de ser uma óptima e divertida leitura, especialmente para quem é fã do género.

04/06/2014

A Culpa é das Estrelas - John Green

Sinopse: Apesar do milagre da medicina que fez diminuir o tumor que a atacara há alguns anos, Hazel nunca tinha conhecido outra situação que não a de doente terminal, sendo o capítulo final da sua vida parte integrante do seu diagnóstico. Mas com a chegada repentina ao Grupo de Apoio dos Miúdos com Cancro de uma atraente reviravolta de seu nome Augustus Waters, a história de Hazel vê-se agora prestes a ser completamente rescrita.

Confesso: vi-me obrigada a procurar críticas a este livro pela internet fora para me tentar inspirar a escrever algo minimamente decente sobre ele. Tudo o que encontrei parecia colocar o livro num pedestal, considerando-o uma magnífica obra-prima e uma lição de vida que todos devíamos aprender. Por mais estranho que pareça, as palavras que li a respeito do livro não me fizeram reflectir, nem tão-pouco concordar com elas.
Antes que me comecem a interpretar mal, eu gostei do livro. Mas não consigo dizer que se trata de uma obra-prima fascinante. Uma das coisas que consigo dizer a seu respeito é que é giro. Sim, talvez, para muitos daqueles que o leram, pode ser estúpido dizer-se, simplesmente, que é giro. Mas não posso mentir e dizer que é uma obra-prima e algo digno de um best-seller só porque toda a gente o diz.
É um livro giro, leve, que se lê bem. Pode parecer irónico o facto de uma história que envolve cancro ser gira e leve, mas é precisamente o que acontece. Acho que é isto que não o torna monótono, mórbido e deprimente, coisas que poderiam estar associadas a uma história como esta. Isto e o facto de o livro estar repleto de humor negro faz com que as páginas voem sem darmos por elas. A linguagem utilizada por Green - um tanto ou quanto infantil, na minha opinião, por já não estar habituada ao tipo de discurso empregue - também ajuda, embora ache que, realmente, poderia estar um bocadinho melhor. Quer dizer, se o livro é para se destinar a jovens adultos, não faz sentido escrevê-lo de um modo tão "adolescente".
A linguagem foi, de facto, o ponto com o qual embirrei mais. Achei que tudo se passava de modo muito rápido e que algumas cenas eram despropositadas. Mas, quanto à parte de se passar muito rápido, talvez tenha sido de propósito, pelo facto de os protagonistas estarem dispostos a viver como se não houvesse amanhã; estarem dispostos a arriscar como nunca por terem um futuro tão incerto. Talvez porque o facto de aproveitarem a vida fosse, e citando o autor, um efeito secundário de se estar a morrer.
O início girava muito em torno do mesmo - era muito Amesterdão, muito Uma Aflição Imperiosa e muito Peter Van Houten -, mas, lá está, não deixa de ter a sua piada, e o facto de serem focados outros assuntos fazem com que até nos esqueçamos um bocadinho do tema cancro. E é por isso que a história é leve, gira e tem o seu quê de divertido e de romântico. Não dá para não se ter empatia pelos personagens principais. Personagens esses que, quando conhecemos, damos por nós, ainda que involuntariamente, a traçar os seus destinos e a imaginar como cada um irá acabar. E acho que o verdadeiro golpe de génio do autor foi o facto de ter conseguido fazer com que acreditássemos que as coisas iam acabar de uma certa forma e, depois, surpreender-nos, trocar-nos as voltas e alterar o rumo de tudo, brindando-nos com um final inesperado. Pelo menos, para mim. Acreditem: eu imaginei dois finais diferentes para Hazel, e nenhum deles se concretizou. Uma coisa que gosto sempre que aconteça é precisamente isto: o facto de o final não ser como esperava.
Não deixa de ser uma história triste, sim. Afinal, é sobre cancro. Mas o modo como está escrita e aquilo que os protagonistas vivem em determinadas cenas ajudam-nos a meter a doença de lado e a encararmos tudo com leveza e optimismo - tal como nós próprios devíamos encarar a vida. Ao mesmo tempo, há determinados momentos que nos fazem ver como a vida consegue ser cruel e traiçoeira. E momentos com os quais não conseguimos deixar de nos identificar. Por exemplo, uma das grandes dúvidas de Augustus: se seremos capazes de algo grandioso, que nos permita que sejamos recordados quando partirmos - não é o que muitos de nós procuram?
Em suma, é um livro bonito, com o qual não perdemos absolutamente nada em ler.
Deixo-vos, por último, com a minha citação favorita em todo o livro:


Quando os seus lábios semiabertos encontraram os meus, comecei a sentir uma falta de ar que era nova e fascinante. O espaço à nossa volta evaporou-se e, durante um estranho momento, gostei muito do meu corpo; esta coisa arruinada pelo cancro que eu andava a arrastar há anos pareceu subitamente digna de luta, fazendo valer a pena os tubos no peito e os cateteres e a interminável traição corporal dos tumores.

O amor é uma coisa com uma força inacreditável, de facto.

PS: Vou querer ver o filme.
PPS: Não acredito que vão substituir a capa fofinha do livro pelo cartaz horroroso do filme. Sim, horroroso. À primeira vista, aquilo que devia ser Hazel e Gus mais parece um casal homossexual - nada contra os homossexuais; só estou a dizer que a Shailene Woodley ficou mesmo desfavorecida naquela fotografia.

28/02/2014

Em Parte Incerta - Gillian Flynn

A pessoa que alegas conhecer tão bem pode revelar-se completamente diferente daquilo que esperas.
No dia em que Nick e Amy celebram o quinto aniversário de casamento, Amy desaparece misteriosamente, deixando para trás indícios de que terá sido assassinada. De imediato, Nick é apontado como culpado. Embora assegure que esteja inocente, os seus estranhos comportamentos face à polícia e aos media dificilmente conseguem convencer as pessoas da sua inocência.
Foi a primeira vez que me aventurei num policial, e devo dizer que me surpreendi bastante pela positiva. Em Parte Incerta é um livro que queremos devorar, de modo a podermos descobrir tudo o que aconteceu, mas que, por outro, não queremos que acabe, por ser tão, mas tão bom. A história é-nos apresentada de uma forma misteriosa e nada enfadonha, em que um capítulo é narrado sob o ponto de vista de Nick e o seguinte consiste numa entrada do diário de Amy, e assim sucessivamente, todos escritos de um modo bastante directo e perceptível, que até consegue, por vezes, ser divertido – e, também, incluir uma linguagem mais obscena de vez em quando, mas que se ignora facilmente.
Para além da história e do enredo por si só, o facto de o livro nos sugar para uma espécie de jogo psicológico fez com que este se tornasse num dos melhores livros que já li até hoje. Flynn não nos deixa saber no que as personagens estão a pensar, nem tão-pouco se estão a falar a sério – muitos dos diálogos de Nick são seguidos por menti, o que nos deixa sempre de pé atrás em relação ao desaparecimento da mulher: queremos acreditar que está inocente, mas os seus comportamentos inadequados e as mentiras conseguem fazer-nos pensar no contrário, confundindo-nos e, ao mesmo tempo, deixando-nos ainda mais ansiosos por saber o que se passou. O que está escrito no diário de Amy em tudo aponta para Nick, o que nos mexe ainda mais a cabeça. Ou seja, o modo como a história nos é apresentada deixa-nos ora a apoiar Nick, ora a apoiar Amy. E, como se isso não bastasse, quando pensamos conhecer bem uma personagem, eis que surge uma reviravolta inesperada que altera todo o rumo da história. Flynn revelou-se bastante perspicaz – para além de original – ao levar-me a sentir de determinada maneira em relação às personagens e ao trocar-me depois as voltas mais adiante, surpreendendo-me de uma forma que nunca tinha experimentado.
Conseguimos ficar um tanto ou quanto em choque à medida que o lemos. Leva-nos a pensar no poder que a sociedade exerce sobre uma pessoa, de forma a modificar a sua personalidade somente para agradar aos outros, e na influência do ambiente familiar na construção do carácter. Mas, acima de tudo, faz-nos pensar que existem pessoas capazes de tudo. Um livro genial que não nos deixa indiferente.

25/01/2014

Trilogia do Elfo Negro - R. A. Salvatore

Esqueçam tudo o que sabem – ou julgavam saber – sobre elfos.
Nesta trilogia, Salvatore apresenta-nos os drow, os elfos negros, um povo ambicioso e cruel. Vivem num mundo chamado Subescuro, nas profundezas da terra, mais propriamente numa cidade constituída por diversas Casas hierarquizadas. Cada Casa/família drow deseja poder, deseja passar à frente das outras e subir naquela hierarquia, de modo a ver-se nas boas graças da maléfica deusa que adoram. E, para isso – para ascenderem naquela sociedade –, basta...um assassinato. Eliminando uma Casa enfraquecida por qualquer motivo, a Casa vitoriosa passa a ocupar um novo nível na sociedade, e, consequentemente, a agradar à sua deusa...excepto quando um ataque não é bem-sucedido.
No meio de uma dessas batalhas, nasce Drizzt, um elfo que se vai revelar como sendo diferente dos restantes. Desenvolve um sentido de honra e de justiça completamente estranho à sua cidade, mesmo antes de conhecer todos os costumes hediondos do seu povo e de perceber que está a ser treinado para ser um assassino. Ao longo da trilogia, acompanhamos a sua vida e passamos a conhecê-lo. E passamos a conhecê-lo tão bem, que passa a ser uma das personagens mais queridas e cativantes sobre as quais já tivemos oportunidade de ler. Mostrando-se revoltado contra todos os esquemas que regem aquela sociedade, mas sem qualquer hipótese a não ser continuar a segui-los, e com ideais totalmente opostos aos dos restantes cidadãos, rapidamente se apercebe de que aquele não é o lugar adequado para si e decide partir, à procura de um lar onde possa ser aceite – e quem é que nunca se sentiu assim, à parte de um grupo e com a esperança de que, algures por aí, está o lugar onde realmente pertencemos? Porém, num mundo onde o perigo espreita em qualquer esquina, onde apenas tem um companheiro em quem confiar, onde continuará a ser perseguido pelos implacáveis drow, onde, provavelmente, nunca será aceite devido à sua forma de pensar…será que este lugar realmente existe?

Salvatore conseguiu criar um universo brilhante e original, com enredos que nos prendem e não nos deixam indiferentes e que envolvem um pouco de tudo: batalhas, mentiras, segredos, conspirações, correntes de aventuras e peripécias, bonitas amizades. Mostra-nos umas personagens tão diferentes daquelas às quais fiquei habituada, destacando o lado do mal e a escuridão que vêm sempre por acréscimo nos outros livros do género – uma lufada de ar fresco. Uma leitura empolgante e cheia de surpresas, trazida até nós sob pontos de vista de diversas personagens e escrita com o maior cuidado. E aí pode estar um problema. Talvez o facto de a escrita ser muito detalhada consiga ser aborrecido para muita gente, mas, para mim, é algo que me fascina - admiro quem consiga escrever tudo ao pormenor, fazendo-nos imaginar as coisas da melhor forma possível. No entanto, nas cenas de batalha chega a ser demasiado pormenorizada – é um dos poucos pontos negativos que tenho a destacar. Confundiu-me um bocado, e estas cenas sim, conseguem ser um bocadinho aborrecidas, principalmente porque não conseguia visualizar bem os movimentos descritos.
Como acabei por me tornar numa romântica com o passar do tempo, estava precisamente à espera de algum romance, nem que fosse apenas no final da trilogia, coisa que não aconteceu. Outro aspecto negativo. Mas que não é suficiente para retirar toda a magia da história – apenas acho que Drizzt é demasiado engraçado para ficar sozinho…bem, se lerem os livros (ou se já os tiverem lido), vão compreender-me. Um outro ponto negativo que tenho a referir é o final – desenrolou-se de forma demasiado rápida, diferente da que o autor nos habitua, a meu ver – e uma outra cena que achei despropositada, precisamente porque me fez lembrar demasiado o encontro de Bilbo com Smaug n'O Hobbit. Uma cena que me desiludiu por não ter sido totalmente original como as restantes.
As palavras-chave desta trilogia poderiam ser matar, vingança, guerra e outras que tais. Palavras tão pouco ou nada cativantes, mas que, neste caso, não consegui deixar-me envolver. A partir de certo ponto, dei por mim embrenhada na história, começando a devorar páginas e páginas, capítulos e capítulos, que até se tornava difícil parar. Os três livros entraram de imediato para os meus favoritos, lugares que não concedo a qualquer um. Uma leitura perfeita para amantes de fantasia e aventura, que nos mostra que, por mais estranhos que sejam os nossos pensamentos e ideais comparativamente aos de uma maioria, há sempre um lugar para nós.

12/12/2013

Estudar vs Trabalhar


Cada vez me convenço mais de que quem trabalha é que está bem, em comparação com quem estuda.
Porque, quer dizer, olhem para nós, estudantes - especialmente os universitários, que a escola, comparada com isto, não passa de uma brincadeira de crianças. Vamos às aulas, voltamos para casa e os assuntos relacionados com aulas continuam na nossa cabeça. Em vez de um descanso ou de ocupar a cabeça com outras coisas, há que pensar no trabalho que é para ser feito, no teste para o qual tem que se estudar e nos exames que, apesar de estarem a meses de distância, têm que ser preparados. Como umas horas semanais não chegam para isso, existe o fim-de-semana para pensarmos ainda mais nestes assuntos. Os fins-de-semana, aqueles dois diazinhos outrora tão adorados, convertem-se subitamente num inferno: como não existem as aulas, podemos ficar em casa, o que significa mais horas para pensarmos nas coisas relacionadas com aulas, e, como tal, mais tempo para estudar ou para fazer algum trabalho que nos foi exigido. Com isto, os desejos de sair de casa, estar com outras pessoas, praticar um desporto ou dedicarmo-nos aos nossos hobbies são empurrados para um recanto sombrio do nosso cérebro. Porque este tem que estar atafulhado com tudo aquilo que temos que fazer e saber em relação ao raio das aulas. E, assim de repente, vemos a vida a escapar-se por entre os dedos. Tudo porque o nosso precioso tempo livre é dedicado às mesmas coisas às quais o nosso tempo "não-livre" é também dedicado...aulas. Só aulas, aulas, aulas.
Quem trabalha, pelo contrário, está safo. Tão, mas tão safo, que me deixa com uma tremenda inveja. Porque, assim que chegam a casa depois de um dia de trabalho, esse trabalho fica do outro lado da porta. Não há coisas para estudar, não há trabalhos para fazer, não há apresentações para preparar. Há liberdade total depois das horas habituais de trabalho; há tempo livre para ser aproveitado da melhor maneira, da maneira que se quiser. Claro que há determinados empregos em que trazem trabalho para casa, mas estou a excluir estes casos. E depois ainda nos pagam, ao contrário do que acontece no caso dos estudantes, a única "profissão" em que tem que se pagar para a exercer. E, pagando-nos, ui, venham daí as viagens, os festivais de música e sei lá mais o quê, sem ter que pedir dinheiro aos papás e sem roer-me de inveja dos betinhos com os papás ricos que estão sempre a viajar e afins.
Leio alguns blogs de pessoas que já trabalham e ninguém sabe a inveja que sinto ao ler que, apesar do trabalho, que é, por vezes, exaustivo, têm imenso tempo livre; quer dizer, pode não ser imenso, mas aproveitam-no, fazem tanta coisa... Já eu, faço o quê? Todos os bocadinhos de tempo livre que tenho são usados para estudar. E isto enerva-me, principalmente porque não quero recordar os anos da faculdade desta maneira. Sinto que isto é apenas desperdiçar anos de vida. É por isso que estou tão ansiosa por terminar este curso e por trabalhar finalmente. Só assim aproveitarei o tempo da melhor forma, e tenho tantos projectos que gostava de realizar...
E depois ainda me tentam convencer a fazer um mestrado. Bitch, please, assim nunca mais acabo de estudar! Credo, há tanto mais na vida...

08/11/2013

A Cabana - Wm. Paul Young

Sinopse: As férias de Mackenzie Allen Philips com a família na floresta do estado de Oregon tornaram-se num pesadelo. Missy, a filha mais nova, foi raptada e, de acordo com as provas encontradas numa cabana abandonada, brutalmente assassinada.
Quatro anos mais tarde, Mack, mergulhado numa depressão da qual nunca recuperou, recebe um bilhete, aparentemente escrito por Deus, convidando-o a voltar à malograda cabana.
Ainda que confuso, Mack decide regressar à montanha e reviver todo aquele pesadelo. O que ele vai encontrar naquela cabana mudará o seu mundo para sempre.

Não sei ao certo o que me deu para ler este livro, muito sinceramente. Estava lá por casa, já fora lido pela mãe e pela minha irmã e tanto uma como a outra adoraram-no e recomendaram-mo. Bem, a minha mãe recomendou. A minha irmã disse que eu não ia gostar. De qualquer das formas, já estava na minha lista de livros para ler já há algum tempo. Mas, mais uma vez, não sei bem porquê. Nunca fui dada a religiões. Talvez me tenha despertado algum interesse precisamente por causa disso, porque podia fazer-me mudar de ideias e fazer com que eu passasse a acreditar que sim, existe uma força superior qualquer.
Mas a coisa não pegou. A minha irmã tinha razão.
O ínicio do livro estava a ser bastante bom: a acção a desenrolar-se a bom ritmo e várias coisas a acontecer. Nada monótono, portanto, para além de bem escrito. No entanto, a partir do momento em que Mack volta à cabana, pronto, tem-se o caldo entornado. O mais engraçado é que as pessoas que adoraram o livro provavelmente preferiram o que aconteceu a partir daqui, enquanto comigo aconteceu exactamente o contrário.
De início, há a surpresa. A visão de Deus que o autor nos apresenta não tem, de facto, nada a ver com aquilo que qualquer comum mortal imagina. Reconheço que foi algo bem concedido. Mas a narrativa a partir daí, caraças...foi um tédio que tornou a leitura deste livro uma das leituras mais penosas de sempre para mim. É que eram só conversas. Só. Pura e simplesmente conversas entre Mack e Deus. A única coisa que mudava era o espaço em que as conversas se desenrolavam, porque até os temas das conversas conseguiam ser repetitivos. Os espaços foram a única coisa que me fascinou. O autor descreve-os de tal forma, que me fazem imaginar lugares mesmo bonitos e, de certa forma, mágicos. Mas, depois da descrição bem feita, lá vinham as conversas. O ciclo era sempre o mesmo: descrição de um novo lugar, conversas, ida de Mack para outra zona, descrição deste novo sítio, mais uma conversa, e por aí adiante. E foi isto que achei mesmo aborrecido. Não acontecia nada, eram só conversas acerca do que o ser humano tinha feito ao longo do tempo e que temos que aceitar que Deus viva em nós e blá blá blá. Para além de que muitas das frases eram enigmáticas. Tive que ler muitas delas mais que uma vez para as compreender. Houve até algumas que desisti de tentar perceber.
A verdade é que podia ter deixado o livro de lado, mas, sempre que começo alguma coisa, tenho que a acabar. E queria saber o que acontecia no fim, se havia alguma lição a aprender. Porque, afinal de contas, a capa do livro diz que Mudará a sua vida para sempre. Estava inquieta para que aquele homem saísse do raio daquela cabana, mas tal só aconteceu quase no final do livro. Pronto, o final não foi mau. Mas acho que se dispensava uma metade das conversetas. Não aprendi nada com aquilo. Nope, a minha vida não mudou. Apenas desperdicei o meu tempo a ler algo tão aborrecido.
Só uma última coisa: o prólogo. Aquilo está escrito de modo a dar a entender que Mack existe mesmo e que é amigo do autor. Dá a entender que Mack viveu, de facto, aquela história e que a contou ao autor para que este a escrevesse. Não percebi a ideia de o prólogo ter sido escrito neste sentido. É que, se a ideia era apresentar a personagem, podia ter sido escrito de outra forma. Da maneira que está, é estranho. Até porque, lendo o livro todo, vê-se logo que foi tudo inventado, logo a personagem principal foi inventada também.
Enfim, se quiserem e se vos chama a atenção, leiam-no e não se limitem à minha opinião. Mas não o recomendo.

04/09/2013

Destinos Interrompidos - Lissa Price

Sinopse: Callie tem dezasseis anos e vive com Tyler, o irmão mais novo, e Michael, um amigo, nos escombros da cidade de Los Angeles. Quando as Guerras dos Esporos rebentaram, matando todos aqueles que tinham mais de vinte anos e menos de sessenta, Callie perdeu os pais. Como muitos outros Iniciantes, teve de aprender a sobreviver, ocupando prédios desabitados, roubando água e alimentos, fugindo aos Inspectores e combatendo os Renegados. Para tirar Tyler das ruas e garantir ao irmão uma vida melhor, Callie só vê uma solução: oferecer a sua juventude à Destinos Primordiais, uma empresa misteriosa que aluga corpos adolescentes aos velhos Terminantes – seniores, com centenas de anos, que querem ser jovens outra vez. Tudo corre como previsto, até o neurochip que lhe colocaram na cabeça avariar. Callie acorda, de súbito, na vida da sua locatária, a viver numa luxuosa mansão, a guiar carros topo de gama e a sair com o neto de um senador. A vida quase parece um conto de fadas, até Callie descobrir que a sua locatária não quer apenas divertir-se e que, no mundo perverso da Destinos Primordiais, a sobrevivência é apenas o começo.

Há capas de livros que chamam a nossa atenção. Mais do que um título ou do que o autor, é a capa que nos chama, que nos faz agarrar no livro e ler o que está na contracapa...pelo menos, no meu caso. O contraste das cores e a rapariga com a cabeleira cor-de-rosa levaram-me a pegar neste livro assim que o vi pela primeira vez numa livraria. E, assim que li a sinopse, decidi que tinha que o ler. E não me desiludiu.
Este livro é tão bom. Mas tão bom, mesmo.
Talvez por nunca ter lido algo do género pós-apocalíptico, por ter sido algo tão diferente do que já li até então. É que tem ingredientes que o tornam numa excelente leitura: acção, mistério e romance. Para além de estar bem escrito, com personagens bem caracterizadas e cheio de surpresas. Sim, porque quando achamos que nada mais pode acontecer, eis que o livro nos surpreende. Agarrou-me logo no início e cativou-me não só pela história, como também pelo mundo futurista em que esta se desenrola. E quando se chega à parte em que Callie acorda na vida da locatária torna-se muito difícil largar o livro. Apetece devorá-lo, saber o que acontece a cada virar de página.
Houve apenas uma falha, a meu ver, um pouco grave: a ausência da descrição física de Callie. Tudo bem que fala em certos traços, mas coisas como a cor dos olhos e do cabelo fazem logo falta. Acho que é algo praticamente imprescindível, pois temos que ver a personagem na nossa cabeça. Se não, como havemos de a imaginar? Pela imagem que está na capa? Claro que não. Até porque as capas podem variar consoante os países. Mas a tendência é esta.
Fora isso, rendi-me à imaginação de Price e à sua visão do futuro - a mansão onde Callie passa a viver é algo de espectacular! O final do livro só nos faz ansiar por mais, ao oferecer-nos mais alguns mistérios. Pensei que fosse uma história com princípio e fim, mas, depois daquele final, torna-se claro que haverá uma continuação. E certamente ficarei à espera do próximo volume.