Eu podia vir aqui escrever um texto todo sentimentalista sobre o meu pai e dizer, no fim, que é o melhor pai do mundo. Mas não o posso fazer, pois o meu pai está longe de ser o melhor. O meu pai sempre foi ausente, casado com o trabalho, chegando a haver dias em que nem sequer o via. Ausência esta que começou a ser cada vez mais frequente, a partir do momento em que passou a viajar em trabalho aos fins-de-semana, o que acabou por me deixar habituada ao facto de ele raramente estar por perto. O meu pai praticamente não me conhece, e, com ele, não tenho a mesma confiança e à-vontade que tenho com a minha mãe. O meu pai é uma pessoa com a qual não dá para contar, e depois quer que eu esteja sempre disponível para qualquer coisa. O meu pai parece que só se apercebeu que eu existia quando saiu de casa - "convenientemente", quando eu já estava crescidinha -, e parece agora achar que pode recuperar o tempo perdido. O meu pai parece esquecer-se que, embora eu viva com a minha mãe, não é só ela que tem que fazer tudo por mim - não tem que ser sempre ela a pagar todas as consultas às quais eu tenha que ir, não tem que ser apenas ela a pagar a renda do apartamento da cidade académica e a dar-me dinheiro para eu poder comer, nem tão-pouco devia ser ela a pagar as minhas propinas e as viagens de avião na íntegra, que antes eram a dividir pelos dois, mas que, de há uns tempos para cá e por um motivo que eu ainda não consegui entender, tem sido assim. E, apesar disso, está sempre pronto a ligar-me a mim ou à minha irmã para irmos comer fora. Parece que é apenas para isso que nos sabe telefonar, como se não tivesse grande responsabilidade sobre nós.
O pior de tudo é saber que sempre será assim. Que nunca terei uma família dita "normal", com uma figura paterna por perto, e que, mesmo quando já tiver a minha independência, terei que pensar em coisas do tipo Hoje vou estar com a minha mãe e amanhã com o meu pai, revezando-me como um objecto e sendo obrigada a estar com um em detrimento do outro, ou obrigada a cancelar determinados planos, passando sempre dois Natais diferentes e etc., em vez de apenas um, um com a família inteira. Gostava mesmo que ele tivesse sido diferente e que as coisas tivessem seguido outro rumo.

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