05/11/2016

Escrito por mim #8

A noite estava repleta de estrelas, e apenas algumas nuvens dispersas cruzavam o céu negro. Uma grande meia-lua observava-nos, como um olho branco semicerrado, e conferia um brilho prateado a tudo o que era capaz de alcançar. O vento de Inverno não se fazia sentir, tornando a noite numa das mais agradáveis até então, mas o ar não deixava de estar gelado. O meu rosto e as mãos estavam frios e nuvens de vapor formavam-se de todas as vezes que expirava o ar. No entanto, a felicidade de estar a voar, sobretudo ao lado dele, e a sensação de liberdade que aquele acto me conferia deixavam-me num estado de leveza tal, que era como se nada me pudesse preocupar. Na verdade, qualquer outro pensamento que pudesse ter não chegava sequer a formar-se na minha mente, desvanecendo-se como pó.
Lentamente, deixámos o campus e sobrevoámos a cidade. Estava coberta de branco e envolta numa anormal quietude. As ruas estavam iluminadas pelos candeeiros que funcionavam por meio de magia, mas não se via ninguém a pé. A cidade ocupava-se de tarefas do quotidiano ou repousava no mundo dos sonhos, refugiada num lar de calor e de conforto e protegida do frio do Inverno e da escuridão da noite, completamente alheia às duas almas que a sobrevoavam, fascinadas com o que viam, como se pertencessem a uma outra realidade e estivessem naquela apenas por passagem, a observá-la pela primeira vez. Flutuámos sobre a cidade junto aos edifícios mais altos, tão silenciosos que nos convencemos de que ninguém daria por nós. E tal parecia confirmar-se a cada segundo que passava, como se sentíssemos a própria cidade a dormir debaixo de nós enquanto voávamos. Era como se, debaixo de nós e a envolver toda a cidade, estivesse um manto invisível, a cobri-la com silêncio e com sossego, a impregná-la com um tipo de magia que a fazia dormir e evitar que olhasse para o céu e se deparasse com aquelas duas almas. Senti-me como uma espectadora, uma viajante, alguém que não tinha acesso àquele lugar. Como se, mais do que um manto invisível, existisse também uma espécie de redoma a cobrir a cidade e a separá-la de mim, a impedir que eu e ela, entidades pertencentes a dois mundos diferentes, tivéssemos qualquer contacto.
Durante todo o passeio, eu e ele não trocámos uma palavra, de tão absortos e deslumbrados com o que se estendia por baixo de nós e com a incrível sensação de voar, especialmente em boa companhia. Depois da cidade, sobrevoámos os seus limites. As colinas e as pequenas vilas que se espalhavam sobre elas, também adormecidas e cobertas de branco. Os bosques e as estradas que as separavam e as florestas mais densas e com as árvores mais altas, pelas quais deixei a minha mão aberta perpassar e sentir as suas folhas, que persistiam em pleno Inverno. Os ribeiros que as cruzavam aqui e ali e os sopés de gigantescas e imponentes montanhas rochosas que se erguiam em direcção ao céu. Tudo tão silencioso, que parecia inacessível e quase irreal, mas que, ao mesmo tempo, me deixava a imaginar uma vida de aventuras a percorrer tais cenários.
Elevámo-nos de encontro às nuvens antes de descermos a pique para o oceano banhado a prata pela lua, e aí apercebi-me do quão alto era capaz de voar e de como isso não me assustava ou preocupava, desde que o quisesse e estivesse confiante. Tal como tudo o resto, o mar encontrava-se calmo, e a canção imparável causada pela suave ondulação tranquilizava-me ainda mais. Aproximei-me o suficiente para inspirar aquele odor salgado e característico e para passar as pontas dos dedos ao de leve pela água, que rapidamente recolhi devido à diferença de temperatura. Quando as luzes da cidade, ao fundo, se tornaram demasiado próximas, tornámos a ascender.
Atravessámos as nuvens, uma e outra vez, subindo e descendo no ar somente para passarmos, uma vez mais, por aquela camada de vapor de água que se assemelhava ao mais fofo algodão. Por vezes, enquanto subia, dava meia-volta, ficando de olhos postos no céu com as suas inúmeras estrelas e vendo-as depois a afastarem-se assim que descia e a serem-me retiradas do campo de visão quando atravessava uma nuvem. Quando me cansei de as furar, permiti-me rodopiar no ar ou flutuar de barriga para cima, como tanto gostava de fazer quando me encontrava no oceano. Observava o céu estrelado ou a paisagem lá do alto, ao mesmo tempo que, dentro de mim, sentia a felicidade pura de uma criança.
A certa altura, senti-o atrás de mim, e deixei-me cair ao seu encontro, de costas e lentamente. Sentei-me, de costas para ele, na parte dianteira da vassoura, que ele me cedeu assim que me vira a aproximar-se. Não o fizera devido ao cansaço; o misto de sensações – felicidade, alegria, divertimento, leveza, liberdade – que crescia a cada segundo dentro de mim impedia que qualquer forma de cansaço se manifestasse. Fizera-o para estar mais próxima dele, como que para partilhar, com ele, aquelas sensações. Mesmo que tal não fizesse sentido algum.
Uma das suas mãos continuava a segurar o cabo da vassoura, para poder conduzi-la. Agora com o peso de dois corpos, optou por conduzir a vassoura num voo lento e em frente, sem um destino em particular. Continuávamos sobre o oceano, qual manto de veludo negro ondulante, com a cidade à nossa frente, cujas construções subiam no espaço como uma escadaria e eram intercaladas por minúsculos pontos de luz quente e suave, que faziam lembrar pirilampos. O outro braço dele rodeou-me o ombro e a parte da frente do meu corpo, ficando a sua mão pousada no meu ombro contrário. Assentou o queixo nesse meu mesmo ombro, ao mesmo tempo que me puxava mais para perto de si, lenta e gentilmente. As minhas costas ficaram contra o seu peito. Senti o seu calor, suave e reconfortante, a ser-me transferido, bem como a sua respiração junto ao meu pescoço. O coração martelava-se-me fortemente no peito, mas um sorriso de felicidade e de deleite desenhou-se sem esforço no meu rosto, como que num gesto involuntário. Naquele momento, senti-me feliz, protegida e invencível, como se não houvesse mal algum no mundo capaz de me magoar, como se tudo fosse possível. E só quis que tudo aquilo – eu e ele abraçados em pleno ar, sobre o oceano, com a cidade iluminada à nossa frente, envolvidos por uma bolha de felicidade e alheios ao resto do mundo – durasse para sempre.

Obs.: a música Walking in the Air, dos Nightwish, para além de absolutamente linda, foi uma grande fonte de inspiração para este texto.

30/10/2016

Facto #44


Não sou uma pessoa expressiva. Daquele tipo de pessoa que expressa aquilo que sente - leia-se: sentimentos - como se falasse do estado do tempo. Já aqui, há uns anos atrás, falei sobre isso. No entanto, acho que acabo por perder por ser assim. Por não dizer as coisas. Por preferir não falar, achando que as pessoas sabem aquilo que sinto. Um pensamento errado, eu acho. Que comecei a achar errado, aliás, ultimamente. Primeiro, porque as pessoas não estão dentro da nossa cabeça e não vão adivinhar o que sentimos. E, segundo, porque nós próprios podemos não passar a ideia correcta. Podemos, involuntariamente, ter certas atitudes ou dizer certas coisas sem controlarmos, que levam os outros a achar que nos sentimos de determinada maneira em relação a eles. Que nos sentimos de uma maneira que não corresponde à verdade.
Já perdi uma pessoa por não ter dito o que sentia. Ou melhor, por não ter sido capaz de admitir o que sentia em relação a essa pessoa e por só me ter apercebido disso quando já foi tarde. Ando a lembrar-me disso constantemente e a dizer a mim mesma que não quero cometer o mesmo erro.
Mas é-me demasiado difícil expressar-me. Enquanto para algumas pessoas é algo completamente natural, para mim é demasiado assustador. Ando a trabalhar nisso, mas, mesmo assim, fica sempre algo por dizer. Acabo sempre por pensar que podia ter dito mais.
Apesar de tudo, estou mesmo disposta a ultrapassar isto. A expressar-me e a não deixar nada por dizer, apesar de todos os medos. Antes que seja tarde.

29/10/2016

Just friends

Ele (depois de debitar uma lista de coisas de que gosta acerca dela): Gosto dos teus abraços. São tão apertados e quase fico sem respirar, mas pronto...
Ela: Ups. Desculpa.
Ele: Não; eu gosto. São tão gostosos. Tão bons.
Ela: Aww...
E limitou-se a continuar a olhar para ele e a sorrir feita parva. Enquanto ele continuava a debitar a lista de coisas de que gosta acerca dela. 

22/10/2016

A felicidade consegue ser tão simples

Perguntaram-me o que era preciso para me fazerem feliz. Respondi que basta mostrar-se que se importam. Que se preocupem, que demonstrem que gostam de mim e que querem estar comigo. Não sei como me saiu esta resposta, mas é mesmo assim. Vindo dos outros, não preciso de muito para me sentir feliz. Porque, vendo bem, passar um bom bocado com alguém de quem gosto - seja a tomar um café e a conversar, seja a dar um passeio, ou qualquer outra coisa - faz-me sentir feliz. Sinto-me feliz quando isso acontece; sinto-me feliz quando recebo um convite ou quando se programa qualquer coisa; sinto-me feliz no momento em que estou com essas pessoas e sinto-me feliz quando as deixo e quando regresso a casa. Não deixa de ser estranho este sentimento. Isto é, de existirem pessoas que nos fazem tão bem. Que nos fazem sentir bem, valorizadas, especiais, felizes - em separado ou tudo isto ao mesmo tempo.

18/10/2016

Quando a música fala por nós


Há umas semanas atrás, estes versos adequaram-se:

We had fire in our eyes
In the beginning I
Never felt so alive
(...)
I swear, I never meant to let it die
(...)
It's not fair when you say that I didn't try
Three Days Grace - Let It Die

(...)should have last forever
But now it's time to sail on 
So take this anchor from my heart
So we can finally drift apart 
Before we drown in sorrow

Hoje, o verso que se adequa e que nunca fez tanto sentido como agora é este:

I am scared to death to fall in love with you.