Gosto muito mais do Porto do que de Lisboa. Acho que é normal, tendo em conta que o Porto foi a cidade que me acolheu durante três anos e meio. É lá que me sinto em casa. Em Lisboa, sentir-me em casa é a última coisa que pode acontecer. Acho tudo muito confuso e as pessoas parecem-me muito mais stressadas. Em Lisboa, pelo contrário, sinto-me um bocado perdida.
Nunca tinha saído em Lisboa sozinha, ao passo que, no Porto, já o fiz vezes sem conta. Em Lisboa, saía sempre com o meu namorado ou com a minha irmã. Até ontem. Ontem, a minha irmã resolveu passar o dia - que, por sinal, estava fantástico, cheio de sol - a dormir depois de ter vindo de uma festa da faculdade dela, e eu, que não queria nem por nada desperdiçar o dia fechada em sua casa, resolvi ir dar uma volta sozinha.
Mas o grande problema em estar-se sozinha é que faz-nos pensar em triliões de coisas ao mesmo tempo.
Sentei-me num banco do Parque das Nações, à sombra, a olhar para o rio. Nos primeiros instantes, apreciei, de facto, a vista, mas, depois, os meus pensamentos voaram para longe. Pensei no quanto os últimos dias me tinham feito bem e no quanto me fizeram feliz. Em Amesterdão, no Porto e, até, na própria Lisboa, que, apesar de me fazer sentir confusa e perdida, consegue sempre proporcionar-me boas recordações, especialmente a partir da MEO Arena. Comecei a deprimir por estar quase a regressar aos Açores. Adoro alguns aspectos daquela terra, entre os quais o facto de tudo ser relativamente perto e de não perder demasiado tempo em transportes, coisa que não acontece aqui. Mas detesto o facto de ser tão limitada. Gosto de ir para sítios que não conheço, só mesmo para andar a pé, a passear, e para tirar fotografias; gosto dos centros comerciais enormes; gosto das feiras do livro e dos concertos; gosto do facto de ninguém me conhecer e de, por isso, ser capaz de fazer o que quiser sem ser julgada. E este tipo de coisas não acontece lá. Este tipo de coisas fez-me feliz nestes últimos dias, e acho que comecei a deprimir precisamente por causa disso: por não saber quando voltarei a encontrar este tipo de felicidade.
Não sei, contudo, se seria realmente feliz se vivesse por aqui, na parte continental. Acho que tudo isto me fez tão feliz porque não faz parte da minha rotina habitual, e foi por isso que quis aproveitar todos estes dias ao máximo. Se aqui vivesse, estas coisas já fariam parte da minha rotina, e, talvez, deixassem de ter o mesmo sabor quando se tornassem tão banais.
Acho que nunca saberei. As pessoas continuam a perguntar-me onde vou querer viver, e eu continuo sem saber responder. Claro que também encontro pedacinhos de felicidade na minha terra, isto nem se questiona. Mas são outro tipo de pedacinhos. Pedacinhos que se complementam com estes que encontro aqui.
E acho que, no fundo, o que eu gostava era mesmo disto: de continuar a complementá-los. De ser capaz de, vivendo nos Açores, escapar à rotina de vez em quando e dar aqui um saltinho, só mesmo para reencontrar estes pedacinhos felizes.
Felizmente, apareceu, depois, uma rapariga a vender marcadores de livros, que me impediu de pensar mais e de, consequentemente, deprimir mais. Os meus pensamentos foram interrompidos e ainda ganhei um marcador novo.
Não tenho grande vontade de regressar. Mas sei que o vou fazer com uma bagagem repleta de recordações e com o coração cheio.