O lápis deslizava sobre o papel como
se tivesse vida própria. Fugindo ao meu controlo, dava forma ao que se escondia
nas profundezas do meu subconsciente, libertando-o, trazendo-o para a
realidade. Com ele, vinha um misto de sentimentos, que me fazia sempre
questionar se tudo não teria passado de um sonho ou se acontecera de facto.
Dada a criatividade que começara a adquirir, não me admirava se tudo tivesse
sido produto da imaginação.
Dava agora os retoques finais, indício
de que o meu momento de prazer e diversão estava a chegar ao fim. Mas não os
sentimentos e as perguntas. Estes surgiriam de todas as vezes que olhasse para
aquele desenho. Para aquele e para outros.
Relaxei o braço e admirei o
resultado final, ignorando as constantes sombras dos miúdos que por ali
passavam. Não me importava que olhassem ou tecessem comentários, até porque nem
os estava a ouvir. Importava-me, sim, que me interrompessem o estado de transe
provocado pelo simples acto de pegar num lápis e de o usar para sujar uma folha
imaculadamente nova com um único ponto. O que, felizmente, não era algo que
acontecesse. Continuava protegida pela armadura que tinha vindo a construir com
o passar das vidas, a armadura que nunca me deixava ficar mal. Parecia irradiar
uma energia tão forte, que repelia quem ousasse aproximar-se. E parecia que
essa energia se propagava, formando um círculo à minha volta que incluía também
a árvore à qual estava encostada, fechando-me num mundo à parte, povoado pela
música que me ecoava nos ouvidos.
Estava, então, sentada na base de
uma árvore, contra o seu tronco, acolhida pela sombra fresca que me
proporcionava e que me conferia uma estranha sensação de paz. Sem me importar
se as minhas calças de ganga estreitas ficassem verdes devido à relva, ou se a
minha mochila e roupa fossem invadidas por insectos. Tinha as pernas flectidas,
e, sobre elas, o meu bloco de desenho, um dos meus companheiros do dia-a-dia. O
outro era o leitor mp3 completamente ultrapassado – mas do qual não me iria
livrar tão cedo –, recheado de canções que me faziam relaxar, esquecer os
problemas, fugir à realidade ou inspirar-me para um novo desenho. Algumas delas
eram capazes de me fornecer tudo isto ao mesmo tempo.
E, na página onde o bloco estava
aberto, aquilo que acabara de desenhar. O retrato de Mormak, mais um entre
tantos. Mas um retrato pouco realista. Mais virado para uma versão cartoon. Um retrato negro e sedutor com
um toque de arrogância e mistério, o seu rosto ligeiramente de lado e com um
olhar extraordinariamente atraente pelo canto do olho, que me dava a sensação
de me estar a chamar para descobrir outra realidade; a sua realidade. Um olhar
que dizia que ir com ele era perigoso e podia ser a minha sentença de morte,
mas que era quase impossível de resistir. A sua boca não sorria, e os seus
cabelos, finos e tornados mais compridos do que aquilo que eram, caíam-lhe pelo
rosto como fios de prata e agitavam-se com uma leve brisa. Um rosto duro, algo
tenso, pele lisa e sem a característica barba. Talvez aquele não fosse Mormak,
como o meu subconsciente quisera transmitir. Parecia, antes, uma personagem de
uma série de animação não dirigida a crianças, o vilão encantador que arrebata
os corações das rapariguinhas puras e inocentes.




