É incrível como as séries influenciam tanto a nossa vida. Especialmente em termos de perspectivas de futuro.
A primeira série que comecei a seguir foi o CSI:NY, e lembro-me perfeitamente de como fiquei fascinada. Comecei a ver um episódio numa noite em que a televisão estava acesa e não tive paciência para mudar de canal, e bastaram-me cinco minutos - se tanto - para me decidir a manter-me naquele canal. Eu tinha mesmo de saber como é que aquela pessoa tinha morrido.
Depois deste, vieram mais e mais episódios, a ponto de adorar aquela série. Mesmo tendo a noção de que, na vida real, as coisas não seriam daquela maneira, assistia aos episódios a desejar ser uma CSI como as personagens e usar a ciência para fazer algo tão espectacular como descobrir um assassino e uma causa de morte. Algum tempo mais tarde, a parte laboratorial da coisa passou a ficar em segundo plano para mim, pois surgiu o interesse pela parte que me parecia ainda mais espectacular: o acto de examinar um cadáver. Sim, podem dizer que é nojento ou mórbido e podem franzir o nariz; já estou habituada a que a maioria das pessoas faça isso. Mas sim, eu queria ser uma médica legista.
Contudo, não sei ao certo o que me aconteceu no meu décimo-segundo ano. Perdi o interesse. Dizia que não queria ir para medicina porque eram demasiados anos a estudar e porque a nota do exame de físico-química nunca me deixaria entrar naquele curso - para além de estar um bocado cansada do "estereótipo" de que os bons alunos tinham que ir para medicina. Não melhorei a nota, pois detestava a parte da física e não tinha paciência para repetir o exame. Estava, apenas, inquieta para acabar o secundário e sair daquele lugar. Deve ter sido o pior erro que cometi na vida, porque, algum tempo depois, o interesse voltou. E, aí, desisti de tudo para ir atrás daquele sonho demasiado distante, mas a vida pareceu rir-se de mim, como se me dissesse Ai é? Agora é que decides fazer isso? Já vais ver... Resultado: tantos meses a estudar só para ter uma m*rda de um quinze no exame de físico-química e para não entrar em medicina.
Apesar de tudo, o primeiro ano em nutrição não foi mau de todo. Lembro-me tão bem da primeira aula de anatomia, em que fiquei entusiasmadíssima quando a professora disse que íamos ter aulas no teatro anatómico e íamos ver material cadavérico. Eram aulas de grande sacrifício para a maioria dos meus colegas, mas eu entrava naquele teatro com satisfação e pegava nos órgãos e mexia nos cadáveres como se fossem brinquedos.
Não voltei a tentar a minha sorte no ano seguinte, pois não queria continuar a andar para trás - e, acima de tudo, não queria mais uma desilusão. Mas é uma coisa na qual às vezes penso. Sei que a universidade do Algarve tem um curso de medicina para pessoas que já têm outro curso, mas não sei até que ponto iria aguentar passar mais anos a estudar, ainda para mais a estudar algo tão "intensivo". Para além de que pede uma série de requisitos aos candidatos, e estes candidatos não devem ser poucos. Mas, se me dessem a escolher entre um mestrado da treta e um curso de medicina na universidade do Algarve, ia, decididamente, para a última.
Não deixa de ser irónico que queria ir para medicina não para salvar vidas, mas sim para ser a voz dos mortos, a sua mensageira no mundo dos vivos, capaz de transmitir as respostas que morreram com eles.
Se pudesse voltar atrás, teria feito tudo de forma diferente. Mas, agora que aqui estou, resta-me, para já, terminar a licenciatura, e, só depois, voltar a pensar nisso e decidir o que fazer da minha vida.